Coronavírus: Não fique em casa se sentir algo – Vá ao médico

Saúde

Em uma coletiva de imprensa no dia 9 de julho, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Elcio Franco, afirmou: “Adotamos uma nova orientação de casos de Covid-19, mudando a estratégia do ‘fique em casa’ para ‘procure um profissional de saúde’, mesmo que o sintoma seja leve”. Dito de outra forma, todo brasileiro que começar a manifestar sintomas como tosse, espirro, coriza, dor de cabeça, febre baixa e alterações intestinais — que sugerem a presença do novo coronavírus (Sars-CoV-2) — deveria procurar atendimento médico.
Antes, a proposta era permanecer completamente isolado em casa e visitar um ambulatório apenas se o quadro se agravasse (com piora da febre ou surgimento de falta de ar, dor no peito, dificuldade para se movimentar, tontura etc).
De acordo com o Ministério da Saúde, o SUS agora está preparado para lidar com a demanda extra. “Nós aprendemos que, ao aguardar em casa, os pacientes chegam aos hospitais em quadros clínicos mais agravados. O tratamento precoce evita a piora do paciente e diminui a necessidade de respiradores”, argumentou Elcio Franco.
Mas o fato é que não há tratamentos farmacológicos comprovadamente eficazes para os casos leves do novo coronavírus. “Do ponto de vista de conduta médica, não há o que fazer. Até agora não existe nenhum tratamento que evite a progressão para a forma grave da Covid-19”, afirma o pneumologista Frederico Fernandes, presidente da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia (SPPT).
Ancorado nas melhores pesquisas científicas disponíveis, um informe recente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) aponta que nenhum medicamento se mostrou capaz de ajudar pacientes com sintomas iniciais do novo coronavírus até o momento. Cabe destacar que o Ministério da Saúde defende o tratamento precoce com hidroxicloroquina e azitromicina — mas não apresenta pesquisas rigorosas que atestem a eficiência do método. Já um estudo publicado no periódico científico The New England Journal of Medicine indica que o uso preventivo em pacientes com alto risco de exposição ao Sars-CoV-2 não trouxe benefícios. E esses fármacos podem acarretar efeitos colaterais, como arritmia cardíaca.
A pneumologista Letícia Kawano-Dourado, do Hospital do Coração (HCor), em São Paulo, também não vê sentido na decisão do Ministério da Saúde de orientar os brasileiros com sintomas leves irem para postos de saúde. Ela faz parte do comitê diretivo da Coalizão Covid Brasil, um consórcio de hospitais nacionais que vêm estudando diferentes remédios contra o novo coronavírus. “Se, por exemplo, o resultado de algum dos nossos trabalhos mostrar que um medicamento específico ajuda a evitar a progressão de um caso leve para um mais grave, aí é possível pensar em pedir para um paciente com sintomas iniciais ir para o hospital”, afirma. “Mas no momento não temos embasamento para uma decisão dessas, que também traz riscos”, completa.